 isso. O mestre de armas só
oferecia escárnio. Thorne o odiava, concluíra Jon; e,
claro, odiava ainda mais os outros rapazes.
- Chega - disse-lhes Thorne. - Não suporto mais que
certa quantidade de inépcia por dia. Se os Outros
alguma vez nos atacarem, rezo para que tenham
arqueiros, porque vocês só servem para alvos de
palha.
Jon seguiu os outros de volta ao armeiro,
caminhando só. Ali caminhava só com frequência.
Havia quase vinte rapazes no grupo com quem
treinava, mas a nenhum podia chamar de amigo. A
maior parte deles era dois ou três anos mais velho,
mas nenhum chegava a ser sequer metade do lutador
que Robb fora aos catorze anos. Dareon era rápido,
mas tinha medo de ser atingido. Pyp usava a espada
como um punhal, Jeren era fraco como uma mulher e
Grenn, lento e desastrado. Os golpes de Halder eram
brutalmente duros, mas atirava-se diretamente aos
ataques do adversário. Quanto mais tempo passava
com eles, mais Jon os desprezava.
No armeiro, Jon pendurou a espada e a bainha num
gancho na parede de pedra, ignorando os outros à
sua volta. Metodicamente, começou a despir a cota
de malha, o couro e as lãs encharcadas de suor.
Bocados de carvão ardiam em braseiros de ferro em
ambas as extremidades da longa sala, mas Jon
começou a tremer. Ali, o frio o acompanhava
sempre. Dentro de alguns anos iria se esquecer de
como era sentir-se quente.
O cansaço o atingiu subitamente enquanto vestia os
rudes tecidos negros que eram seu vestuário de todos
os dias. Sentou-se num banco, brincando com as
ataduras do manto. Tanto frio, pensou, recordando
os salões de Winterfell, onde as águas quentes
corriam pelas paredes como sangue pelo corpo de um
homem. Pouco calor se podia encontrar em Castelo
Negro; ali, as paredes eram frias, e as pessoas, mais
frias ainda.
Ninguém lhe dissera que a Patrulha da Noite seria
assim; ninguém, exceto Tyrion Lannister. O anão
oferecera-lhe a verdade na estrada para o norte, mas
então já era tarde demais. Jon perguntava a si
mesmo se o pai saberia como era a Muralha. Achava
que tinha de saber; e isso só aumentava sua dor.
Até o tio o abandonara naquele lugar frio no fim do
mundo. Ali, o genial Benjen Stark que conhecia se
transformara numa pessoa diferente. Era Primeiro
Patrulheiro, e passava os dias e as noites com o
Senhor Comandante Mormont, o Meistre Aemon e os
outros altos oficiais, ao passo que Jon fora entregue
ao comando bem pouco afável de Sor Alliser Thorne.
Três dias depois da chegada, Jon ouvira dizer que
Benjen Stark ia levar meia dúzia de homens numa
patrulha pela Floresta Assombrada. Naquela noite,
procurou o tio na grande sala de estar de madeira e
pediu para ir com ele. Benjen recusou rudemente.
- Isto não é Winterfell - disse-lhe, enquanto cortava
a carne com um garfo e o punhal. - Na Muralha, um
homem só obtém aquilo que ganha, Você não é um
patrulheiro, Jon, não passa de um rapaz verde ainda
cheirando a verão.
Estupidamente, Jon argumentou:
- Farei quinze anos no dia do meu nome. Quase um
homem feito.
Benjen Stark franziu a sobrancelha.
- É e será um rapaz até que Sor Alliser diga que está
apto para ser um homem da Patrulha da Noite. Se
pensava que seu sangue Stark lhe traria favores
fáceis, enganou-se. Quando fazemos nossos votos,
pomos de lado as velhas famílias. Seu pai terá
sempre um lugar no meu coração, mas meus irmãos
agora são estes - indicou com o punhal os homens que
os rodeavam, todos eles duros, frios e vestidos de
negro.
Jon levantou-se no dia seguinte de madrugada para
assistir à partida do tio. Um de seus homens, grande
e feio, cantava uma canção obscena enquanto selava
um pequeno mas forte cavalo, com a respiração
formando nuvens no ar frio da manhã. Ben Stark
sorriu ao ouvi-lo, mas não teve sorrisos para o
sobrinho.
- Quantas vezes terei de lhe dizer que não, Jon?
Conversaremos quando eu regressar. Enquanto
observava o tio levar o cavalo para o túnel, Jon
recordara as coisas que Tyrion Lannister lhe dissera
na estrada do rei, e vira, com o olho da mente, Ben
Stark morto, com o sangue vermelho na neve. O
pensamento lhe provocou náusea. Em que estava se
transformando? Mais tarde, procurou Fantasma na
solidão da cela e enterrou a cara no espesso pelo
branco do animal.
Se tinha de estar só, faria da solidão sua armadura.
Castelo Negro não possuía um bosque sagrado,
apenas um pequeno septo e um septão bêbado, mas
Jon não sentia vontade de rezar a deuses, fossem
velhos ou novos. Se existissem, pensava, eram tão
cruéis e implacáveis como o inverno.
Tinha saudade de seus verdadeiros irmãos: o
pequeno Rickon, com os olhos inteligentes brilhando
enquanto suplicava um doce; Robb, seu rival,
melhor amigo e constante companheiro; Bran,
teimoso e curioso, sempre querendo seguir Jon e
Robb e juntar-se ao que quer que fosse que
estivessem fazendo. Também sentia falta das
meninas, até de Sansa, que nunca o chamava de
outra coisa a não ser "o meu meio-irmão", pois já
tinha idade para saber o que bastardo queria dizer. E
Arya... tinha ainda mais saudades dela que de Robb,
a